No dia 30 de junho, disseram-lhe, uma conjunção de entidades cármicas - ou algo desse tipo, afinal não entendia bem das divindades celestiais - estaria reunida para tratar das coisas que lhe atravancavam a vida. Era o fim de um ciclo. Um novo semestre começaria e estava mais do que na hora de passar a limpo tantas mazelas enraizadas na alma. Mas havia um porém. O recomeço nunca é dado de bandeja; é preciso merecê-lo. Rituais, sempre eles.
Pegou um papel em branco. Data, cidade, hora. Antes, cinco minutos de meditação cronometrada pelo celular. Sons da natureza e o ruído da própria respiração. Queria crer. Queria intimamente acreditar que inspirar e expirar bastava; que sentir, pedir perdão, amar e agradecer eram o real mistério. O caminho, a verdade e a vida que habitavam dentro se si. Não seria essa a manifestação perfeita do seu Deus?
Não deixou que a caneta descansasse entre seus dedos. Sem pausa, listou, uma a uma, as farpas que lhe ardiam os olhos e tiravam o sono, a paz, a liberdade que tão avidamente buscava. Tinha medo de eternizar palavras e criar raízes em sentimentos que sequer admitia existir. Porém que outra forma há de expurgar o mal do que começar a lhe chamar pelo nome? Não é possível enterrar o que não é.
Quando terminou de exorcizar as entranhas, dobrou o papel e apertou-o contra o peito. Com o exagero que lhe era típico, imaginou sua vida resumida na esperança de que uma data simbólica varresse do mundo a inadequação que tão bem lhe cabia. Pensou nas entidades celestiais reunidas em semicírculo, com sua vida nas mãos, fazendo conjecturas sobre seus erros e acertos, os segredos que levaria consigo, as verdades cicatrizadas dentro do corpo que ninguém ousou desnudar. O que ficaria depois de tudo?
Caminhou até a cozinha escura e silenciosa e depositou a carta dentro de um caldeirão. Sem pressa, sentindo-se uma alquimista moderna, queimou o papel e assistiu o alaranjado das chamas cumprir o (seu) destino. Precisou repetir o gesto algumas vezes, pois o fogo insistia em apagar. Como as persistências da vida, afinal. Quando só restava no fundo da panela uma massa preta e disforme, deu por encerrado o rito. As cinzas, jogaria na natureza. Estava decretado o fim de um ciclo, uma era, o tempo de angústias e solidão. Que viesse o sol e o impulso vital que a todos empurra para a luz.
Ainda que não acreditasse, acreditou.
O que você faz nas reticências?
Indecifrável (ou A Capacidade de Se Surpreender Propositalmente)
Vou te contar um segredo. Você é capaz de guardá-lo?
Adoro dizer que não tenho cabelos brancos - o que é verdade, só que não completamente. É que já me apareceram alguns fios, que recuso a aceitar que são meus. Na primeira vez, arranquei aquele desconhecido e esqueci que ele me pertencia. Meses se passaram até que o insistente solitário voltasse sorrateiro, no mesmo lugar, para o meio dos cachos que resolvi tomar como meus. Fingi me espantar com sua presença. Como se nunca um fio branco tivesse a ousadia de me enfrentar assim. Como se aceitar sua existência fosse uma confissão. (De quê, afinal?)
Arranquei-o mais uma vez. E se alguém citava seus cabelos brancos, eu adotava uma disfarçada exclamação: Eu? Não, eu não os tenho!
Deste então, permanecemos, o fio e eu, num jogo de poder. Ele aparece, eu reajo como quem é pego de surpresa, expurgo sua verdade e insisto que sequer nos conhecemos. Até o instante seguinte da revelação, entre uma escovada de dentes e uma conferida na ruga que se apresenta num olhar taciturno. Você está se enganando, diz a voz inconveniente do grilo falante que carrego comigo.
E o que você tem a ver com isso? Fingir para si mesmo - e acreditar com veracidade na palavra dita - é privilégio para poucos, rebato com a faca entre dentes. Se não sou mais aquela pessoa que se joga na piscina sem saber se está cheia, tornei-me aquela que aprendeu a selecionar as próprias lutas. Às vezes, elas se encontram; noutras, empunham-se espadas ou rogam-se pragas em que não há salvação.
De longe, observo a disputa e sorrio quando, sutilmente desarmadas, as duas se abraçam. Então esqueço os cabelos brancos e ensaio um espanto com a ideia que tenho de mim.
(Você ousaria me perguntar qual?)
Pela janela
Essa noite tive novamente aquele sonho que me intriga há anos. Não sei exatamente quando começou. Tampouco consigo expressar de modo preciso o que sinto quando estou nessa espécie de limbo da consciência (o que Freud diria disso agora?), nem lá, nem cá. Mas é assim: as coisas, no meu sonho, elas não têm peso, André. É como se eu pudesse carregar qualquer objeto sem dificuldade. Sofá, obelisco, motocicleta, elefante. Qualquer coisa. E isso me dá uma sensação estranha, porque sei que estou indo contra a ordem natural e sinto que ter esse poder fosse um tipo de perversão.
Sei que não sou clara, mas esse foi o jeito que encontrei de explicar o sentimento de inadequação que me invade nesses sonhos. Quando acordo, fico uns instantes tentando dormir de novo para sentir um pouco mais daquilo; pegar algo com as mãos e jogar para cima sem medo do risco. Tudo vira sopro, gelatina, neve derretida entre meus medos antes que eu possa respirar.
Lembro da primeira vez que te falei por alto sobre isso. Discorríamos sobre sonhos e realidade. Você me perguntou na lata: "Qual é o peso da sua vida, querida?" Por segundos, emudeci. Eu não tinha resposta. O que eu achava ser um grande problema, era somente bolha de sabão. Como diria meu pai, o buraco é mais embaixo.
Passei dias mastigando aquelas palavras ditas de modo pausado e olhar fixo em mim. Essa noite, André, quando me vi, mais uma vez, equilibrando uma mesa e seis cadeiras na ponta do dedo, esbarrei com a ideia da mulher que entrou na sala à meia luz, onde duas poltronas, um colchão e um abajur colorido pareciam não fazer sentido. A caixa de lenços, o iPad antigo conectado na tomada, uma escrivaninha encostada na parede. Um cheiro que só pertence aquele lugar.
E lá estava a mulher que disfarçava antes de chorar horrores. A que mexia compulsivamente nas pulseiras por não saber o que fazer com as mãos. Ela, que mal se sustentava de pé, mas cismava em controlar o indizível. Quis lhe dar um abraço, oferecer um copo d'água, recitar-lhe o mantra do eu sinto muito / me perdoe / eu te amo / sou grata. Porém nada foi necessário. Palavras seriam areia movediça na novidade do semi-deserto de culpas que eu enfim conhecia. O sonho era o caminho: tirar o peso das coisas. E você sabia disso quando me fez A pergunta.
Talvez eu te responda em breve. E cite uma frase genial guardada para ocasiões como essa. Por hora, continuo esmiuçando certezas enferrujdas e tentando atribuir recordações aos odores que ficaram registrados no meu imaginário de miudezas. Semana que vem, André, quem sabe.
Velha roupa colorida
O caramujo e eu nos encaramos. Soube que escreveria algo que começasse assim no instante em que nossas almas se encontraram debaixo de uma chuva insistente que me encharcou os cílios.
Com as antenas, ele sorriu. De repente, entendi que a minha natureza e a dele eram feitas da mesma matéria. Em segundos, compreendi os meses de uma ansiedade desamparada que tentava em vão apalpar a realidade. Digeri as ausências, a respiração suspensa, o frio que me corroía as articulações e deixava em tudo um gosto ácido de escrivaninha.
O que quero é quem eu sou, disse-lhe.
Num susto, reconheci minha própria voz, que se esforçava garganta afora. Sob o olhar incerto do bicho, pensei por instantes nas marcas que deixei impressas. Pedaços de uma versão de mim que eu não reconhecia mais, porém que estavam lá. E estariam para sempre. Porque paguei um alto preço e ousei desnudar velhas feridas. Porque foi preciso tirar as cascas das cicatrizes adormecidas para expurgar o amargo que me embaçava a vista.
(O que eu quero é quem eu sou. Repeti como se escutar aquilo tivesse algum efeito mágico capaz de sedimentar verdades.)
Então aconteceu. Sem alarde, a liberdade, aquela coisa cujo nome carregava o peso de quem já foi escravo de si, enevoou-se nos meus cabelos, percorreu a fina camada de pele que me aveludava as mãos; cravou garras delicadas nos meus pés. E me deixou partir.
Quando me despedi do caramujo, agradeci-lhe a paciência e empatia. Desejei tudo de bom, vaicomdeus, a gente se encontra por aí. Sabia que nossos caminhos, cruzados ao acaso de um dia cinzento e úmido, estariam entrelaçados para sempre. Eu não seria mais a mesma pessoa. E ter a certeza disso foi como uma xícara de café quente nos primeiros minutos da manhã. Um abraço inesperado numa cidade estranha. Uma música de Belchior cantada com o pulmão no meio do trânsito. O passado, meu bem, é uma roupa que já não me serve mais.
Eu, estrangeira de mim, voltava para casa.
Com as antenas, ele sorriu. De repente, entendi que a minha natureza e a dele eram feitas da mesma matéria. Em segundos, compreendi os meses de uma ansiedade desamparada que tentava em vão apalpar a realidade. Digeri as ausências, a respiração suspensa, o frio que me corroía as articulações e deixava em tudo um gosto ácido de escrivaninha.
O que quero é quem eu sou, disse-lhe.
Num susto, reconheci minha própria voz, que se esforçava garganta afora. Sob o olhar incerto do bicho, pensei por instantes nas marcas que deixei impressas. Pedaços de uma versão de mim que eu não reconhecia mais, porém que estavam lá. E estariam para sempre. Porque paguei um alto preço e ousei desnudar velhas feridas. Porque foi preciso tirar as cascas das cicatrizes adormecidas para expurgar o amargo que me embaçava a vista.
(O que eu quero é quem eu sou. Repeti como se escutar aquilo tivesse algum efeito mágico capaz de sedimentar verdades.)
Então aconteceu. Sem alarde, a liberdade, aquela coisa cujo nome carregava o peso de quem já foi escravo de si, enevoou-se nos meus cabelos, percorreu a fina camada de pele que me aveludava as mãos; cravou garras delicadas nos meus pés. E me deixou partir.
Quando me despedi do caramujo, agradeci-lhe a paciência e empatia. Desejei tudo de bom, vaicomdeus, a gente se encontra por aí. Sabia que nossos caminhos, cruzados ao acaso de um dia cinzento e úmido, estariam entrelaçados para sempre. Eu não seria mais a mesma pessoa. E ter a certeza disso foi como uma xícara de café quente nos primeiros minutos da manhã. Um abraço inesperado numa cidade estranha. Uma música de Belchior cantada com o pulmão no meio do trânsito. O passado, meu bem, é uma roupa que já não me serve mais.
Eu, estrangeira de mim, voltava para casa.
Onde moram as respostas
A certeza de que morreria no instante seguinte. Peito apertado, coração na boca, mãos que apapalvam o rosto em busca de um sinal. E o medo.
Respira. Respira. Respira.
Não é nada, você sabe. Vai passar. Pensa em qualquer coisa. Manter o pensamento desviado por três minutos é o segredo.
Respira.
E o medo. E o medo.
E.
O.
Medo.
Pensou em coisas práticas como separar a carteirinha do plano de saúde, procurar o carregador do celular (quando voltaria para casa?); tirar o pijama e enfiar-se numa roupa qualquer.
Respira.
Apertou as mãos. Sem drama, de repente não havia mais tremor, névoa, pavor enrolado nos dedos. Havia o choque de se reconhecer fora de si, é verdade. Havia também uma pura falta de sincronia entre A Pessoa e seu duplo. Mas isso ficaria para outra hora. Agora, importava-lhe cravar as unhas na ideia de que não morreria mais. Não agora. (Talvez nunca?)
Com as costas derretidas na cama, dobrou as pernas em um x meticuloso. Músculos alongados como âncora jogada mar adentro. Foi o pensamento, decidiu. Ou a calma engolida como livro de autoajuda, o vento frio e barulhento do ventilador, a reza forte para um DEUS ignorado em caixa alta. A resiliência. Poderia ser tudo.
Ou somente a cabeça. Resolveu que dormiria sem respostas. Porque naquele instante, fechar os olhos já era algo silenciosamente esclarecedor.
Imagem: Pinterest
Respira. Respira. Respira.
Não é nada, você sabe. Vai passar. Pensa em qualquer coisa. Manter o pensamento desviado por três minutos é o segredo.
Respira.
E o medo. E o medo.
E.
O.
Medo.
Pensou em coisas práticas como separar a carteirinha do plano de saúde, procurar o carregador do celular (quando voltaria para casa?); tirar o pijama e enfiar-se numa roupa qualquer.
Respira.
Apertou as mãos. Sem drama, de repente não havia mais tremor, névoa, pavor enrolado nos dedos. Havia o choque de se reconhecer fora de si, é verdade. Havia também uma pura falta de sincronia entre A Pessoa e seu duplo. Mas isso ficaria para outra hora. Agora, importava-lhe cravar as unhas na ideia de que não morreria mais. Não agora. (Talvez nunca?)
Com as costas derretidas na cama, dobrou as pernas em um x meticuloso. Músculos alongados como âncora jogada mar adentro. Foi o pensamento, decidiu. Ou a calma engolida como livro de autoajuda, o vento frio e barulhento do ventilador, a reza forte para um DEUS ignorado em caixa alta. A resiliência. Poderia ser tudo.
Ou somente a cabeça. Resolveu que dormiria sem respostas. Porque naquele instante, fechar os olhos já era algo silenciosamente esclarecedor.
Imagem: Pinterest
Precioso impreciso
Comecei pela bolsa. Em gestos conscientes, porém não planejados, fui tirando de dentro o que não me era essencial. E lá se foram os penduricalhos que eu carregava sem perceber que eram eles o peso no humor, na confiança, na falta de vontade de qualquer coisa que exigisse coragem. O caminho, aprendi, é o bem-estar. É em busca disso que tenho tateado no meio da noite, nas entranhas daquilo que guardei em silêncio e que não tinha nome. Agora tem.
A revelação veio como peito esmagado. Uma bigorna de sentimentalidades escancaradas que sempre desaba em cima do personagem engraçado. Inebriada pelo cheiro presente de menta que exalava do chá adormecido, faltou-me o ar. Chorei com violência. Com vergonha de aceitar que colocar a verdade no colo era reconhecer-me um grande clichê. Logo eu que.
Logo eu.
Depois da dor, com a bolsa vazia e a alma cheia de mim, sobraram espaços para doses diárias de pequenas pílulas de prazer. Música, espelho, suor, pernas, cabelo, gratidão, sol, janela aberta, abraço, um telefonema, livros, conversa, segredos, tempo, poesia, sedução, o gosto de vida na boca.
Aprendi a respirar.
Então vieram as palavras. E nos abraçamos num emaranhado de reconciliação e desejos. Lembrei que ainda sou a pessoa do livro de páginas amareladas. A que reverbera. Aquela cujos cílios surgiram no mesmo dia da criação. Ainda sou meio Ana C., meio Hilda, meio a louca que espera na estação as malas que talvez não cheguem. E está tudo bem.
Não sei quantas de mim ficaram para trás na estrada. Mas agora sei aonde devo olhar. E já não odeio as reticências. Sei dar sentido a elas.
Ah, a liberdade.
* Não sei quem é o autor da foto.
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