Velha roupa colorida

O caramujo e eu nos encaramos. Soube que escreveria algo que começasse assim no instante em que nossas almas se encontraram debaixo de uma chuva insistente que me encharcou os cílios.

Com as antenas, ele sorriu. De repente, entendi que a minha natureza e a dele eram feitas da mesma matéria. Em segundos, compreendi os meses de uma ansiedade desamparada que tentava em vão apalpar a realidade. Digeri as ausências, a respiração suspensa, o frio que me corroía as articulações e deixava em tudo um gosto ácido de escrivaninha.

O que quero é quem eu sou, disse-lhe.

Num susto, reconheci minha própria voz, que se esforçava garganta afora. Sob o olhar incerto do bicho, pensei por instantes nas marcas que deixei impressas. Pedaços de uma versão de mim que eu não reconhecia mais, porém que estavam lá. E estariam para sempre. Porque paguei um alto preço e ousei desnudar velhas feridas. Porque foi preciso tirar as cascas das cicatrizes adormecidas para expurgar o amargo que me embaçava a vista.

(O que eu quero é quem eu sou. Repeti como se escutar aquilo tivesse algum efeito mágico capaz de sedimentar verdades.)

Então aconteceu. Sem alarde, a liberdade, aquela coisa cujo nome carregava o peso de quem já foi escravo de si, enevoou-se nos meus cabelos, percorreu a fina camada de pele que me aveludava as mãos; cravou garras delicadas nos meus pés. E me deixou partir.

Quando me despedi do caramujo, agradeci-lhe a paciência e empatia. Desejei tudo de bom, vaicomdeus, a gente se encontra por aí. Sabia que nossos caminhos, cruzados ao acaso de um dia cinzento e úmido, estariam entrelaçados para sempre. Eu não seria mais a mesma pessoa. E ter a certeza disso foi como uma xícara de café quente nos primeiros minutos da manhã. Um abraço inesperado numa cidade estranha. Uma música de Belchior cantada com o pulmão no meio do trânsito. O passado, meu bem, é uma roupa que já não me serve mais.

Eu, estrangeira de mim, voltava para casa.

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