Pela janela

André,

Essa noite tive novamente aquele sonho que me intriga há anos. Não sei exatamente quando começou. Tampouco consigo expressar de modo preciso o que sinto quando estou nessa espécie de limbo da consciência (o que Freud diria disso agora?), nem lá, nem cá. Mas é assim: as coisas, no meu sonho, elas não têm peso, André. É como se eu pudesse carregar qualquer objeto sem dificuldade. Sofá, obelisco, motocicleta, elefante. Qualquer coisa. E isso me dá uma sensação estranha, porque sei que estou indo contra a ordem natural e sinto que ter esse poder fosse um tipo de perversão.

Sei que não sou clara, mas esse foi o jeito que encontrei de explicar o sentimento de inadequação que me invade nesses sonhos.  Quando acordo, fico uns instantes tentando dormir de novo para sentir um pouco mais daquilo; pegar algo com as mãos e jogar para cima sem medo do risco. Tudo vira sopro, gelatina, neve derretida entre meus medos antes que eu possa respirar.

Lembro da primeira vez que te falei por alto sobre isso. Discorríamos sobre sonhos e realidade. Você me perguntou na lata: "Qual é o peso da sua vida, querida?" Por segundos, emudeci. Eu não tinha resposta. O que eu achava ser um grande problema, era somente bolha de sabão. Como diria meu pai, o buraco é mais embaixo.

Passei dias mastigando aquelas palavras ditas de modo pausado e olhar fixo em mim. Essa noite, André, quando me vi, mais uma vez, equilibrando uma mesa e seis cadeiras na ponta do dedo, esbarrei com a ideia da mulher que entrou na sala à meia luz, onde duas poltronas, um colchão e um abajur colorido pareciam não fazer sentido. A caixa de lenços, o iPad antigo conectado na tomada, uma escrivaninha encostada na parede. Um cheiro que só pertence aquele lugar.

E lá estava a mulher que disfarçava antes de chorar horrores. A que mexia compulsivamente nas pulseiras por não saber o que fazer com as mãos. Ela, que mal se sustentava de pé, mas cismava em controlar o indizível. Quis lhe dar um abraço, oferecer um copo d'água, recitar-lhe o mantra do eu sinto muito / me perdoe / eu te amo / sou grata. Porém nada foi necessário. Palavras seriam areia movediça na novidade do semi-deserto de culpas que eu enfim conhecia. O sonho era o caminho: tirar o peso das coisas. E você sabia disso quando me fez A pergunta.

Talvez eu te responda em breve. E cite uma frase genial guardada para ocasiões como essa. Por hora, continuo esmiuçando certezas enferrujdas e tentando atribuir recordações aos odores que ficaram registrados no meu imaginário de miudezas. Semana que vem, André, quem sabe.

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