Vou te contar um segredo. Você é capaz de guardá-lo?
Adoro dizer que não tenho cabelos brancos - o que é verdade, só que não completamente. É que já me apareceram alguns fios, que recuso a aceitar que são meus. Na primeira vez, arranquei aquele desconhecido e esqueci que ele me pertencia. Meses se passaram até que o insistente solitário voltasse sorrateiro, no mesmo lugar, para o meio dos cachos que resolvi tomar como meus. Fingi me espantar com sua presença. Como se nunca um fio branco tivesse a ousadia de me enfrentar assim. Como se aceitar sua existência fosse uma confissão. (De quê, afinal?)
Arranquei-o mais uma vez. E se alguém citava seus cabelos brancos, eu adotava uma disfarçada exclamação: Eu? Não, eu não os tenho!
Deste então, permanecemos, o fio e eu, num jogo de poder. Ele aparece, eu reajo como quem é pego de surpresa, expurgo sua verdade e insisto que sequer nos conhecemos. Até o instante seguinte da revelação, entre uma escovada de dentes e uma conferida na ruga que se apresenta num olhar taciturno. Você está se enganando, diz a voz inconveniente do grilo falante que carrego comigo.
E o que você tem a ver com isso? Fingir para si mesmo - e acreditar com veracidade na palavra dita - é privilégio para poucos, rebato com a faca entre dentes. Se não sou mais aquela pessoa que se joga na piscina sem saber se está cheia, tornei-me aquela que aprendeu a selecionar as próprias lutas. Às vezes, elas se encontram; noutras, empunham-se espadas ou rogam-se pragas em que não há salvação.
De longe, observo a disputa e sorrio quando, sutilmente desarmadas, as duas se abraçam. Então esqueço os cabelos brancos e ensaio um espanto com a ideia que tenho de mim.
(Você ousaria me perguntar qual?)

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