Onde moram as respostas

A certeza de que morreria no instante seguinte. Peito apertado, coração na boca, mãos que apapalvam o rosto em busca de um sinal. E o medo.

Respira. Respira. Respira.

Não é nada, você sabe. Vai passar. Pensa em qualquer coisa. Manter o pensamento desviado por três minutos é o segredo.

Respira.

E o medo. E o medo.

E.

O.

Medo.

Pensou em coisas práticas como separar a carteirinha do plano de saúde, procurar o carregador do celular (quando voltaria para casa?); tirar o pijama e enfiar-se numa roupa qualquer.

Respira.

Apertou as mãos. Sem drama, de repente não havia mais tremor, névoa, pavor enrolado nos dedos. Havia o choque de se reconhecer fora de si, é verdade. Havia também uma pura falta de sincronia entre A Pessoa e seu duplo. Mas isso ficaria para outra hora. Agora, importava-lhe cravar as unhas na ideia de que não morreria mais. Não agora. (Talvez nunca?)

Com as costas derretidas na cama, dobrou as pernas em um x meticuloso. Músculos alongados como âncora jogada mar adentro. Foi o pensamento, decidiu. Ou a calma engolida como livro de autoajuda, o vento frio e barulhento do ventilador, a reza forte para um DEUS ignorado em caixa alta. A resiliência. Poderia ser tudo.

Ou somente a cabeça. Resolveu que dormiria sem respostas. Porque naquele instante, fechar os olhos já era algo silenciosamente esclarecedor.

Imagem: Pinterest

Precioso impreciso


Comecei pela bolsa. Em gestos conscientes, porém não planejados, fui tirando de dentro o que não me era essencial. E lá se foram os penduricalhos que eu carregava sem perceber que eram eles o peso no humor, na confiança, na falta de vontade de qualquer coisa que exigisse coragem. O caminho, aprendi, é o bem-estar. É em busca disso que tenho tateado no meio da noite, nas entranhas daquilo que guardei em silêncio e que não tinha nome. Agora tem.

A revelação veio como peito esmagado. Uma bigorna de sentimentalidades escancaradas que sempre desaba em cima do personagem engraçado. Inebriada pelo cheiro presente de menta que exalava do chá adormecido, faltou-me o ar. Chorei com violência. Com vergonha de aceitar que colocar a verdade no colo era reconhecer-me um grande clichê. Logo eu que.

Logo eu.

Depois da dor, com a bolsa vazia e a alma cheia de mim, sobraram espaços para doses diárias de pequenas pílulas de prazer. Música, espelho, suor, pernas, cabelo, gratidão, sol, janela aberta, abraço, um telefonema, livros, conversa, segredos, tempo, poesia, sedução, o gosto de vida na boca.

Aprendi a respirar.

Então vieram as palavras. E nos abraçamos num emaranhado de reconciliação e desejos. Lembrei que ainda sou a pessoa do livro de páginas amareladas. A que reverbera. Aquela cujos cílios surgiram no mesmo dia da criação. Ainda sou meio Ana C., meio Hilda, meio a louca que espera na estação as malas que talvez não cheguem. E está tudo bem.

Não sei quantas de mim ficaram para trás na estrada. Mas agora sei aonde devo olhar. E  já não odeio as reticências. Sei dar sentido a elas.

Ah, a liberdade.


* Não sei quem é o autor da foto.