Precioso impreciso
Comecei pela bolsa. Em gestos conscientes, porém não planejados, fui tirando de dentro o que não me era essencial. E lá se foram os penduricalhos que eu carregava sem perceber que eram eles o peso no humor, na confiança, na falta de vontade de qualquer coisa que exigisse coragem. O caminho, aprendi, é o bem-estar. É em busca disso que tenho tateado no meio da noite, nas entranhas daquilo que guardei em silêncio e que não tinha nome. Agora tem.
A revelação veio como peito esmagado. Uma bigorna de sentimentalidades escancaradas que sempre desaba em cima do personagem engraçado. Inebriada pelo cheiro presente de menta que exalava do chá adormecido, faltou-me o ar. Chorei com violência. Com vergonha de aceitar que colocar a verdade no colo era reconhecer-me um grande clichê. Logo eu que.
Logo eu.
Depois da dor, com a bolsa vazia e a alma cheia de mim, sobraram espaços para doses diárias de pequenas pílulas de prazer. Música, espelho, suor, pernas, cabelo, gratidão, sol, janela aberta, abraço, um telefonema, livros, conversa, segredos, tempo, poesia, sedução, o gosto de vida na boca.
Aprendi a respirar.
Então vieram as palavras. E nos abraçamos num emaranhado de reconciliação e desejos. Lembrei que ainda sou a pessoa do livro de páginas amareladas. A que reverbera. Aquela cujos cílios surgiram no mesmo dia da criação. Ainda sou meio Ana C., meio Hilda, meio a louca que espera na estação as malas que talvez não cheguem. E está tudo bem.
Não sei quantas de mim ficaram para trás na estrada. Mas agora sei aonde devo olhar. E já não odeio as reticências. Sei dar sentido a elas.
Ah, a liberdade.
* Não sei quem é o autor da foto.
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